O PAÍS DO FAZ DE CONTA - Eduardo Pitta

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O PAÍS DO FAZ DE CONTA - Eduardo Pitta

Mensagem  Ricardo Duarte em Qua Out 15, 2008 11:22 am

http://daliteratura.blogspot.com/
por Eduardo Pitta

Segunda-feira, Outubro 13, 2008
O PAÍS DO FAZ DE CONTA

"Quando esta crónica foi publicada na LER, recebi mensagens a perguntar que história era aquela de, em 1982, os portugueses terem dificuldade em comprar (sem esquemas pelo meio) whisky ou bacalhau. Agora que pus o texto em linha, novo coro de perplexidade. Como os e-mails não trazem agarrada a idade do autor, presumo que seja malta nova, habituada desde a puberdade a ver em qualquer hiper oitenta marcas diferentes de whisky, whiskey e bourbon, uma dúzia de espécies de bacalhau (seco, fresco e congelado), e por aí fora. Pois é. E não era só o whisky e o bacalhau. Era também o arroz. Exactamente: o arroz. Em Cascais, onde então vivia, a Casa Príncipe, o Fauchon lá do sítio — transformada em agência Nova Rede no tempo em que a Nova Rede engolia tudo; já não existe, o Millennium extinguiu o segmento Pobrezinhos —, arranjava embalagens “de agulha” para clientes habituais. Já não falo de artigos de luxo, como queijos e champanhes franceses, chás ingleses, chocolates belgas, salmão escocês e produtos similares, todos de importação, que hoje encontramos ao virar da esquina. Onde é que eu quero chegar? À crise actual. Hoje não temos uma crise cambial, mas contra a falta de liquidez pouco podemos. No fundo, para que serve a garantia de 20 mil milhões de euros dada ontem pelo Estado, na pessoa do ministro das Finanças, ao sistema bancário? Serve para garantir o padrão de consumo dos últimos vinte anos. Padrão de consumo em que o crédito à habitação tem parte de leão. No início dos anos 1980, quando o crédito à habitação ainda não tinha começado a “democratizar-se”, as condições de concessão tinham um código espartano: praticamente sozinha no negócio, a Caixa Geral de Depósitos não tinha pressa (com cunha, a coisa resolvia-se em 3 meses; o normal era o dobro), a situação financeira do interessado era esmiuçada, o montante concedido não excedia 80% da avaliação do imóvel, o prazo da hipoteca não excedia 20 anos, etc. Ninguém sem emprego estável (no Estado, na banca, em empresas públicas ou firmas sólidas) há pelo menos 10 anos... se atrevia a pedir um empréstimo. Depois foi o bodo aos pobres. Nos últimos seis ou sete anos, gente desempregada, ou com emprego precariíssimo, fechou empréstimos em 48 horas para comprar andares com pavimento ondulante, lareira de granito, banheira de hidromassagem, tectos estucados, cozinha hi-tech, luz regulada, vidros duplos, estores eléctricos, garagem para dois carros, etc. Pais que na véspera se queixavam do desemprego da Xana ou do João, taditos, «tiraram relações internacionais e não arranjam nada», gabavam-se no dia seguinte do T3 que a Xana ou o João tinham comprado em Telheiras ou no Parque das Nações, não por irem constituir família, mas por terem direito... à sua privacidade (ou seja, à queca do fim-de-semana). Ouvi conversas destas até à náusea. Receio bem que este padrão tenha de mudar. Porque se o aval de 20 mil milhões de euros servir para garantir o país do faz de conta, então caminharemos alegremente para o abismo."
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Ricardo Duarte

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sim e não

Mensagem  Alexandra Piedade em Qua Out 15, 2008 1:23 pm

Sim, por um lado houve uma orgia consumista por parte de uma classe média sem capacidade real para o fazer.

Não, porque eu ainda me recordo da pouquíssima oferta que existia mesmo se houvesse algum dinheiro para gastar. No final dos 70 e princípio dos 80, quando o escudo era forte face à peseta lembro-me do extase de ir ao Corte Inglês ou às Galerias Preciados e ver prateleiras cheias e charriots a transbordar de coisas giras e modernas, em vez das piroseiras das nossas lojinhas do comércio tradicional.

O problema maior nos últimos 20 anos não foi o acesso ao consumo e como costuma dizer o nosso Ricardo, temos de ter liberdade de escolha, foi fazer as pessoas acreditar em duas falácias:

1º Se todos consumimos o mesmo então somos todos iguais (errado, pq há uns sempre mais iguais que outros e as oportuindades não são iguais para todos)

2º Não é preciso esforçamo-nos para conseguir o queremos, nem pensar a longo prazo. Pq raio é que eu não hei-de ir para Rel. Internacionais que soa tão bem e nem dá muita chatice, mas tem empregabilidade zero??? Ou pq não vou escolher a via ensino quando já sei que a população está a envelhecer e cada vez vai haver menos crianças???
Nota: quando se tem uma vocação inabalável apoio a 100% estas opções, mas só se se estiver suficientemente motivado para fazer face às adversidades

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O SUBPRIME, explicado da forma mais didáctica

Mensagem  joão ratão em Qua Out 15, 2008 3:33 pm

Paul comprou um apartamento, no começo dos anos 90, por 300.000 dólares financiado em 30 anos. Em 2006 o apartamento do Paul passou a valer 1,1 milhão de dólares. Nessa altura, um banco perguntou ao Paul se ele não queria uma quantia em dinheiro emprestada, algo como 800.000 dólares, dando o seu apartamento como garantia. Ele aceitou o empréstimo, fez uma nova hipoteca e recebeu os 800.000 dólares.

Com os 800.000 dólares. Paul, vendo que imóveis não paravam de valorizar, comprou 3 casas em construção dando como entrada algo como 400.000 dólares. Com a diferença (400.000 dólares que Paul recebera do banco) ele fez o seguinte: comprou carro novo (alemão) para ele, deu um carro (japonês) para cada filho e com o resto do dinheiro comprou tv de plasma de 63 polegadas, 43 notebooks, 1634 cuecas. Tudo financiado, tudo a crédito. A esposa do Paul, sentindo-se rica, sentou passou a usar o cartão de crédito à vontade.

Em Agosto de 2007 começaram a correr boatos que os preços dos imóveis estavam a cair. O preço das casas para as quais Paul tinha dado entrada e que estavam em construção caíu vertiginosamente...

O negócio era refinanciar a própria casa, usar o dinheiro para comprar outras casas e revender com lucro. Fácil....parecia fácil. Só que todo o mundo teve a mesma idéia ao mesmo tempo. As taxas de juro que o Paul pagava começaram a subir (as taxas eram pós-fixadas) e o Paul percebeu que o seu investimento em imóveis se transformara num desastre.

Milhões tiveram a mesma ideia do Paul. Havia casas para vender como nunca.

Paul foi aguentando as prestações da sua casa refinanciada, mais as das 3 casas que comprou - como milhões de compatriotas, para revender - mais as prestações dos carros, as das cuecas, dos notebooks, da tv de plasma e do cartão de crédito.

Então as casas que o Paul comprou para revender ficaram prontas e ele tinha que pagar uma grande parcela do empréstimo. Só que neste momento Paul achava que já teria revendido as 3 casas mas, ou não havia compradores ou os que havia só pagariam um preço muito mais baixo do que aquele que o Paul havia pago. Paul ficou enervado. Começou a não pagar aos bancos as hipotecas da casa onde ele morava e das 3 casas que ele havia comprado como investimento. Os bancos ficaram sem receber de milhões de especuladores iguais a Paul.

Paul optou pela sobrevivência da família e tentou renegociar com os bancos mas estes não quiseram acordo. Paul entregou aos bancos as 3 casas que comprou como investimento, perdendo tudo o que tinha investido. Paul ficou falido. Ele e a sua família pararam o consumo...

Milhões de Pauls deixaram de pagar aos bancos os empréstimos que haviam feito com base nos preços dos imóveis. Os bancos haviam transformado os empréstimos de milhões de Pauls em títulos negociáveis. Esses títulos passaram a ser negociados com valor facial. Com a falta de pagamento dos Pauls, esses títulos começaram a não valer um tostão.

Biliões e biliões em títulos passaram a nada valer e esses títulos estavam espalhados por todo o mercado, principalmente nos bancos americanos, mas também em bancos europeus e asiáticos.

Os imóveis eram as garantias dos empréstimos, mas esses empréstimos foram feitos baseados num preço de mercado desses imóveis... preço esse que caíra vertiginosamente. Um empréstimo feito para um imóvel avaliado em 500.000 dólares de repente passou a valer 300.000 dólares e mesmo pelos 300.000 não havia compradores.

Os preços dos imóveis eram uma bolha, um ciclo que não se sustentava, como os esquemas de pirâmide, especulação pura. A falta de pagamento dos milhões de Pauls atingiu fortemente os bancos americanos que perderam centenas de biliões de dólares. A festa do crédito fácil havia acabado.

Com a falta de pagamento dos milhões de Pauls, os bancos pararam de emprestar com medo de não receber. Os Pauls pararam de consumir porque não tinham crédito. Mesmo quem não devia dinheiro não conseguia crédito nos bancos e quem tinha crédito não queria dinheiro emprestado.

O medo de perder o emprego fez a economia travar. Recessão é sentimento, é medo. Mesmo quem pode, pára de consumir.

O FED começou a trabalhar de forma árdua, reduzindo fortemente as taxas de juros e as taxas de empréstimo interbancários. O FED também começou a injectar biliões de dólares no mercado, provendo liquidez. O governo Bush lançou um plano de ajuda à economia sob a forma de devolução de parte do imposto de rendimento pago, visando incrementar o consumo, porém essas acções levam meses para surtir efeitos práticos. Essas acções foram correctas e até agora não é possível afirmar que os EUA estão tecnicamente em recessão.

O FED trabalhava. O mercado ficava atento e as famílias esperançosas. Até que na semana passada o impensável aconteceu. O pior pesadelo para uma economia aconteceu: a crise bancária, pessoas com contas bancárias correndo para levantar assuas economias, boataria geral, pânico. Um dos grandes bancos da América, o Bear Stearns, amanheceu, na segunda feira última, falido, insolvente.

No domingo o FED, de forma inédita, fez um empréstimo ao Bear, apoiado pelo JP Morgan Chase, para que o banco não falisse. Depois disso o Bear foi vendido para o JP Morgan por 2 dólares por ação. Há um ano elas valiam 160 dólares. Durante esta semana dezenas de boatos voltaram a acontecer sobre falência de bancos. Desta vez seria o Lehman Brothers, um banco gigante. O mercado e as pessoas seguem sem saber o que nos espera na próxima segunda-feira.

O que começou com o Paul hoje afecta o mundo inteiro. A coisa pode estar apenas no início. Só o tempo dirá.



E hoje, dia 15 de Setembro/2008, o Lehman Brothers pediu falência, desempregando mais de 26 mil pessoas e provocando uma queda de mais de 500 (quinhentos ) pontos no Indice Dow Jones, que mede o valor ponderado das acções das 30 maiores empresas negociadas na Bolsa de Valores de Nova Iorque - a maior queda em um único dia, desde a crise de 1929 ...

O dia de hoje, certamente, será lembrado para sempre na historia do capitalismo.
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A psicologia económica

Mensagem  Alexandra Piedade em Qua Out 15, 2008 3:55 pm

Muito bem explicadinho, sim senhor. A psicologia, principalmente a de massas, devia ajudar-nos a entender e até prever estes fenómenos. Gostava de ouvir algumas doutas opiniões de especialistas na área, mas até agora, népias, até parece que não é nada com a malta.

Iso de crises parece ser coisa para economistas, ainda por cima com números e tudo.
Mas há excepções e neste blog estao uns conceitos bem interessantes:
http://financascomportamentais.blogspot.com/2008_03_01_archive.html

Alexandra Piedade

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Re: O PAÍS DO FAZ DE CONTA - Eduardo Pitta

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